O prólogo tem duas partes...
Olá meus queridos convidados,
O prólogo de Nas névoas da tempestade tem duas partes… a primeira vocês já leram há duas semanas e abaixo, segue a segunda parte, chave para os mistérios desse livro…
Prólogo - Parte 2
Quinze anos se passaram e as cenas macabras da tempestade eram acessadas por uma jovem, numa perspectiva particular. O moletom marinho e a camiseta branca, ostentando o colégio nobre da região, não escondiam a singularidade da garota. Ruiva, amava seus cabelos, mas dispensaria os cílios quase brancos e as sardas, frequentes motivos de bullying. Exibia com timidez enganadora olhos de onça, encantadores e prontos para o ataque ou defesa. Era doce, insegura, imprevisível.
Seu olhar parecia vagar indefinido pelo jardim, porém, era a visão do passado seu foco real e o protagonista observado, um velejador de cabelos também alaranjados e rara destreza em seu ofício. Desafiava a tempestade, lutando pela vida num pequeno barco à deriva.
Tudo sucumbia às ondas. Embarcações, como meros brinquedos na mão tirânica de Poseidon, eram arremessadas no precipício de Hades. Os gritos, arrastados pela ventania, calavam no turbilhão. O último ato era marcado pela submissão do homem, pai da espectadora, vencido por uma súbita apatia. Exausto de ricochetear nas cristas ensandecidas, ele sumia no mar.
Com o desenlace dele, a cena se dissolvia sem deixar rastros, levando com ela a névoa que sempre prenunciava a visão. Restava o presente: a paz nos jardins de Caetano Andrada, patrão de sua mãe, que se estendiam à frente dela. Não continha as lágrimas, deixava-as fluir riscando o rosto sardento de rímel preto, até terminarem como manchas nos punhos do moletom. Aquele oásis de plantas permitia a natureza mais profunda da colegial se manifestar.
Beatriz respirou como se o oxigênio se esgotasse, resignada. Se sentia como Miranda, personagem de Shakespeare em A tempestade, assistindo de sua ilha deserta a um navio sacudir indefeso no mar enfeitiçado. A ela caberia o papel de observadora, impotente.
Prestes a completar 17, suas deduções esbarravam na verdade. Porém, Beatriz Forman ainda não compreendera todas as maneiras de acessar aquele universo intangível ou a utilidade dos vislumbres. Ao contrário do que acreditava, não existia acaso nessas ocorrências e ela jamais seria mera espectadora.
As visões sobrenaturais sempre a acompanharam. À princípio, eram mais livres e se misturavam às fantasias infantis, anestesiando a realidade difícil da perda precoce do pai. Com a entrada na adolescência, tornaram-se refúgios do autoritarismo de Caetano, da escassez de afeto, da insegurança de não ter o esteio de um lar.
Nem o alvoroço das maritacas foi suficiente para mantê-la no presente. Voltou a Shakespeare, no ponto onde o pai de Miranda tivera o ducado usurpado pelo irmão e o exílio imposto. A tempestade mágica levara todos os envolvidos na trama para um acerto de contas...
— Filha! Tá surda? — gritou a mãe, arrancando Beatriz de seu universo. Gabriela também estava uniformizada, como cozinheira. — Você é bem peculiar, como diria o senhor Caetano, para não falar outra coisa! — completou, girando os indicadores ao redor da cabeleira negra, bem coberta pela touca de cozinha. A filha era a imagem viva do pai, fazendo-a relembrar do egoísmo do marido, que entrara no mar para resgatar algum idiota e jogara a própria família no inferno.
Beatriz travou a mandíbula a ponto de sentir uma pontada no ouvido. Uma tempestade de sentimentos pela mãe também rugia dentro dela: amor, pena, raiva. Viúva jovem, sem dinheiro ou família, na opinião da filha, Gabriela nunca lutara por si ou por ela, se agarrou à mão estendida dos Andrada e assumiu o cômodo papel de vítima do destino. E o gesto pouco gentil da mãe não passou despercebido, foi apenas relevado pela garota, com o efeito colateral de uma fisgada no peito.
— Você é amiga de uma tal de Carla? — A mãe não conhecia ninguém da escola que a filha frequentava havia cinco anos. — Bom, tanto faz! Ela ligou. Disse que espera sua participação num trabalho em grupo ou ficará com zero! Isso é verdade, Beatriz? E como fica a sua sagrada bolsa de estudos?
As cores emprestadas de uma toranja pelo rosto da garota, sumiram. Carla, colega praticamente desconhecida, a flagrara naquela manhã roubando gabaritos de provas da sala dos professores. Foi logo exigindo um favor em troca do sigilo ou a denúncia sumária. Beatriz encarou a situação como um blefe, talvez um jeito estranho de fazer amigos. A menina era tão excluída quanto ela e parecia pouco provável que cumprisse a ameaça.
Já os motivos do delito se escondiam em algum canto obscuro de Beatriz. Não fora a primeira vez que devassara a sala proibida ou os computadores da escola. Nem sabia porque fazia aquelas coisas. Ao menos mantinha uma ética, usando o butim apenas em caso de extrema necessidade. Mal completara sete anos quando testou a resistência dos peixes ornamentais do senhor Caetano ao mercurocromo. O antisséptico do século passado, cujo mercúrio não estava apenas no nome, devastou o aquário do patrão. Pneus furados, correspondências extraviadas, roupas descosturadas em pontos estratégicos. As razões de tudo isso se escondiam até da própria Beatriz.
O recado, porém, concretizou o medo na garota de perder a única autonomia que conquistara em sua vida — estudar onde queria, por seus próprios méritos. Seu passaporte para a liberdade da vida sufocante ao lado da mãe e do senhor Caetano, estava prestes a ser confiscado.
— Eu sou louca, sou ingrata! Tomo decisões infantis, afronto a bondade sem limites do seu patrão, tudo que faço é ridículo. Você sempre detestou minha bolsa, por que resolveu se importar? — retorquiu Beatriz, tentando encerrar o papo para resolver a chantagem.
— Você só descambou desde que saiu do colégio que o senhor Caetano escolheu. Precisa aprender sobre respeito, sua moleca inconsequente! Não vê que devemos tudo ao senhor Caetano?
Nesse momento, para piorar o climão, senhor Caetano Andrada, o figurão em pessoa, saiu da mansão em direção à mãe e filha, atravessando os caminhos ladeados por canteiros de hortênsias e rosas, cultivados com primor pelo time de jardineiros.
Até as pobres flores se curvam à passagem do todo-poderoso em sua marcha rápida, altiva, ou murcham, pensou Beatriz, desejando ter coragem de fazer algo diferente, como prestar continência ou sair em debandada.
— Foi ele que atendeu a ligação — alertou Gabriela entredentes, com uma espécie de satisfação, antes que o patrão pudesse ouvir.
Beatriz revirou os olhos, agora certa que Carla não blefara e que teria mais um embate naquela luta eterna contra o poderio Andrada.
Caetano cumprimentou Gabriela com um movimento galante de cabeça, curvando-se levemente, e encarou Beatriz com desprezo.
— Bia, a diretora, senhora Blanca, acaba de me ligar. Atendendo ao meu pedido, abrirão uma exceção. Vão aceitar sua matrícula fora de época, sem prejuízos ao conteúdo pedagógico ou vestibular. Amanhã você tem uma entrevista agendada...
— Senhor Caetano, agradeço, mas já estudo num ótimo colégio e não vou mudar. — Beatriz se manteve firme, encobrindo a raiva e o medo sem muito sucesso. — Não preciso de entrevista arranjada na base da carteirada ou da exceção. Valeu!
Ele sorriu, mexendo apenas a boca, com os demais músculos faciais congelados. Quando Beatriz vencia a repulsa e olhava nos olhos dele, questionava-se por que alguém deliberadamente faria um tratamento estético que o paralisasse como uma múmia.
— Como queira, Bia — disse ele, impaciente. — A entrevista é para determinar o foco em Medicina, Direito ou Engenharia. Sem dúvida, isso pode ser ajustado a posteriori. Queira você ou não, está ligada aos Andrada, é minha afilhada e vai se comportar como tal! Isso não é uma negociação, nem um dos seus joguinhos.
O autoritarismo de Caetano agia como um tsunami, arrasando qualquer tentativa de Beatriz ser ela mesma.
— Eu sou uma Forman, queira o senhor ou não! E não tenho vocação nenhuma para ser médica ou qualquer outra coisa! — cuspiu Beatriz de qualquer jeito, vencida pela onda gigante.
— Ah, entendi. Você continua com essa bobagem de ser escritora — disse ele, com a expressão de escárnio vencendo a toxina botulínica. — Bia, Bia! Tudo bem, continue brincando de escrever, poderá fazer isso a vida inteira. A entrevista é às 14 horas em ponto, não se atrase — concluiu e transferiu sua atenção para a outra mulher. — Gabriela, vou aceitar agora aquela omelete...
A garota abriu a boca algumas vezes para dar uma resposta à altura, mas nada saiu. De qualquer forma, nunca era ouvida. Os dois já tinham lhe dado as costas, desaparecendo através das portas de vidro, no interior do casarão.
Queria mesmo berrar palavrões bem sujos, acertar o terno de grife com uma pelota de esterco, qualquer coisa diferente da cara de idiota que fez.
Contentou-se em recolher os restos de si que ainda prestavam. Saiu apressada para a área onde a vegetação se adensava, um pequeno bosque nos fundos da propriedade.
Os jardins mesclavam flores, pomar e horta com um resquício de vegetação original, Mata Atlântica na cabeça de Beatriz, que ocupava o terreno antes da construção e onde ela se sentia mais livre. Ali, esquecido e escondido pelas sombras e plantas emaranhadas, um portãozinho dividia a propriedade de Caetano, da mansão-gêmea, lar da influenciadora digital Mércia Vasquez e de seu lendário espelho de obsidiana — o motivo da chantagem de Carla — e segredo do sucesso da celebridade instantânea.
Rumores sobre o espelho se alastraram pelas redes, atiçados pela própria dona dele. Usando seus vlogs e lives mirabolantes, Mércia conseguiu atribuir à obsidiana polida no século XV por Astecas o poder absoluto de atrair a fama para quem a possuísse. Beatriz gargalhou quando soube disso, imaginando que só uma magia barra-pesada explicaria o sucesso daquela vigarista.
Porém, ao ouvir as exigências de Carla para ficar de boca calada, Beatriz foi buscar informações mais confiáveis. Se deparou com relíquias astecas em museus ou obsidianas recém polidas em sites de compra para usos esotéricos. A rocha de origem vulcânica era usada na cura, purificação e autoconhecimento, em diversos rituais e na abertura de canais divinatórios. Um calafrio supersticioso percorreu o corpo da jovem ao ler os artigos, somado a uma sensação de familiaridade e um súbito desejo de posse. Pensar no espelho lhe causou o formigamento nos lábios, um dos sinais que antecediam suas visões.
Roubar as vizinhas não parecia tão absurdo.
As casas eram projetos do mesmo arquiteto, talvez tivessem em comum sistemas de segurança arcaicos e velhos conhecidos de Beatriz, além do acesso privativo secreto. Preciso podar o mato que prende o portão, abrindo gentilmente caminho, pensou Beatriz, já traçando planos para invadir a mansão. Seria mais difícil e arriscado que roubar provinhas ou estragar os bolos da mamãe. Também seria mais instigante.
Se para ser ela mesma, manter a sanidade e a tão desejada independência do senhor Caetano, precisaria ceder àquela loucura de invadir uma propriedade e roubar — correria o risco, — decidiu, sentindo o sabor do medo combinado ao frisson.
Livre-arbítrio. Quanto mais forte era o pulso de vida, com mais ímpeto a Roda da Vida giraria. Beatriz não sabia, mas tomara uma decisão cujas consequências afetariam seu destino e a perseguiriam por muito tempo. (Esta é uma das quotes favoritas das Leitoras VIPs).
O lançamento acontecerá na próxima quinta, 29/9 a partir das 9h. O horário é importante pois os primeiros 50 a comprar o ebook receberão um kit de brindes bacana, feito por mim com todo o carinho. Isso me ajudará a subir mais rapidamente no ranking da Amazon, quem sabe ser BEST-SELLER e atrair uma editora que tenha a minha vibe!
Preciso de vocês, amigos, mais do que nunca!
Juro, o kit é fofo mesmo kkkkkkk
Na próxima semana, vou lançar a Newsletter excepcionalmente na quarta e quinta, assim vocês não tem desculpa para dizer que esqueceram do lançamento e dos brindes!!!!
Um grande beijo a todos,



está chegando sua tempestade! eba